Por Gisela Dantas
Se um dia você estiver andando pela cidade de Teresópolis e ao cruzar com um casal comum de meia idade sentir uma paz enorme invadir seu coração… não se espante!!! Você acabou de encontrar com duas pessoas que escolheram fazer de suas vidas uma luta constante pelo bem de crianças abandonadas ou maltratadas.
Ele, Francisco Carlos Montoni, ela, Nadir Mariano Montoni, casados há 31 anos e pais de dois filhos. Eles abraçaram ainda jovens a missão de fazer o bem.
Pessoas comuns, como eu e você, mas diferentes porque não aceitaram ver o mundo sendo destruído pela violência, pela falta de irmandade, pelo egoísmo, e decidiram dedicar-se a fazer desse um lugar melhor.
Com apenas 17 anos, Francisco e Nadir ingressaram no treinamento para se tornarem missionários da Missão Novas Tribos do Brasil, onde atuarem no campo transcultural e em 1980 foram viver e evangelizar o povo Poturú-Z`Oe.Mas a vida não fica fácil só porque a causa é nobre, desafios chegam para que cada um possa mostrar o seu valor. Repetidas malárias foram o desafio que entrou na vida de Francisco, e depois de 9 anos, aquela missão não poderia continuar.
O PROJETO
E agora, o que fazer??? Viver como pessoas comuns? Não para esse casal. Sem poder continuar a missão entre os esquecidos da floresta, Francisco e Nadir escolheram lutar pelo bem de crianças que precisavam de um lar temporário e cuidados especiais, e assim nasceu o “Projeto Filhos do Coração”, uma casa de passagem para pequenas vidas em transição.
O projeto já funciona há 8 anos em Teresópolis, interior do Rio de Janeiro, e por ele já passaram 142 crianças, das quais 62 foram adotadas. Entre esses houve crianças que foram violentadas, queimadas, abandonadas, que tiveram seus direitos roubados e que depois de serem cuidadas, saíram de lá sorridentes, saudáveis e felizes.
Francisco e Nadir, o casal fundador e que trabalha para manter o projeto, falam com alegria e gratidão a Deus das crianças que ajudaram a cuidar e recuperar, crianças que chegaram desnutridas e que hoje estão crescendo com saúde.
Cuidam de cinco crianças por vez, de 0 a 7 anos, seus organizadores explicam que esse número garante que as crianças recebam atenção, carinho e cuidados típicos da vida familiar, e assim não se sintam institucionalizadas.
O projeto “Filhos do Coração” está registrado no CMDCA de Teresópolis, Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente e recebe as crianças através da Vara da Infância e da Juventude e do idoso de Teresópolis e não tem ligação com o governo. A casa onde funciona o projeto foi uma doação de uma igreja norte-americana e para funcionar conta com doações de alguns empresários, igrejas e pessoas particulares, sendo algumas assiduamente outras esporadicamente.
ENTREVISTA COM FRANCISCO
Francisco Carlos Montoni, ou Quico, como é mais conhecido, junto com sua esposa criou e trabalha no Projeto “Filhos do Coração”. Numa conversa franca e com a certeza de quem faz seu trabalho com toda dedicação, ele falou de suas experiências, do trabalho no projeto e de sua relação de afeto com esses pequenos projetos de vida.
Sobre a origem do projeto, contou que quando saíram da vida missionária, porque ele havia ficado muito doente de malária, foram convidados a trabalhar cuidando dos filhos dos missionários em Anápolis, Goiás, onde ficaram por oito anos e nesse período, nesta mesma cidade, conheceram um casal com uma história incrível e inspiradora: eles brancos, com cinco filhos homens, foram adotar uma menina. No momento de buscar a criança o juíz perguntou se queriam conhecer primeiro, pois a menina era negra. Eles disseram que não, que estavam indo buscar a “filha deles”. A menina esperava por eles toda suja, embrulhada numa blusa velha, dentro de uma caixa de sabão, e ao ver aquela falta de cuidado criaram uma instituição chamada “Minha Casa”, onde funcionava um abrigo para crianças esperando serem adotadas. E foi nesse trabalho que Francisco descobriu sua missão.
Quando o projeto acabou, Francisco e Nadir decidiram desenvolver o Projeto “Filho do Coração”, mas em Anápolis não tiveram chance. Já em Teresópolis, receberam o apoio do juizado da Infância e da Adolescência e conseguiram fundar sua instituição. Por falar nisso, Instituição é uma palavra que ambos não gostam, pois costuma-se dizer que “Instituição é um mal necessário” e eles buscam realizar um “bem necessário”.
Quando perguntado sobre como fazem para manter o projeto funcionando, Francisco disse com simplicidade “cada mês é um milagre”, e completou “Deus sempre nos abençoa com a graça de podermos contar com pessoas generosas que ajudam com doações.”
Num único momento de exaltação, e num pequeno instante de semblante fechado, Francisco falou sobre a revolta de saber que pessoas maltratam crianças, justamente aquelas que deveriam amar e proteger. Contou histórias de crianças que foram abusadas sexualmente por mães, avós, pais. Crianças muitas vezes torturadas, espancadas, queimadas, cheias de seqüelas físicas e psicológicas que irão acompanhá-las para sempre. “Não quer ficar com a criança, entregue-o ao juiz, o abandono sim, constitui crime” .
Ao falar sobre seu trabalho como missionário na tribo Poturú-Z`Oe, Francisco contou que se preparou estudando muito para que pudesse levar conhecimento e facilitar a vida do povo indígena, e que o estudo e preparo são importantes pois precisam preservar a saúde da tribo. Com simplicidade, resumiu o que buscavam realizar: “Nosso trabalho buscava levar uma condição de vida melhor aos índios, mas sempre respeitando as tradições do povo, sua cultura e suas crenças. No entanto, o trabalho acabou por conta de uma decisão da FUNAI, que busca manter as tribos como sempre foram, sem evoluir, como se fossem árvores ou animais.” Falou também que aprendeu muito nessa experiência, como a língua e o jeito de viver na floresta, e que uma das histórias mais interessantes sobre a cultura desse povo é que o pedaço de madeira que usam no lábio inferior e que chamam de Poturu, vem de uma árvore da qual acreditam que se originaram.
Mostrou uma reportagem de uma criança que foi enterrada viva pela mãe e salva por um milagre, e emocionado contou que muitas das crianças que estiveram abrigadas nesse lar que é a casa deles, também são milagres: “Recebemos uma menina uma vez com apenas 24 dias, seus olhos refletiam a dor da fome,seu rosto parecia carregar todas as tristezas do mundo. Seu corpinho era apenas pele e osso. Oito meses depois estava linda, tinha ganhado mais de um quilo. Foi adotada e hoje é amada e feliz. Isso sim é um milagre.”
As fotos dessas crianças salvas emocionam e comprovam o valor do trabalho realizado no projeto, mas não fazem parte dessa reportagem, pois crianças devem ser preservadas. No entanto, Francisco garante que as portas do projeto “Filhos do Coração” estão abertas para quem quiser conhecer os pequeninos e dar-lhes um pouco do amor que foi negado por suas famílias.
MOMENTOS ESPECIAIS
Ao conhecer o casal Francisco e Nadir e o trabalho que eles realizam em prol das crianças abandonadas ou vítimas de maus tratos em Teresópolis, tudo emociona. Mas o que mais chama atenção é a dedicação e o amor com que eles tratam os seus pequenos pupilos. Não há um traço de preconceito, de rejeição, eles fazem o trabalho com amor e se orgulham de terem feito parte da vida de cada uma daquelas crianças.
Uma das histórias que proporcionou uma imensa alegria ao casal é sobre os cinco irmãos que recentemente foram adotados. Eles chegaram ao projeto desnutridos, tristes, debilitados, e lá encontraram amor e dedicação. Conseguiram enfim voltar a ser crianças. Hoje estão felizes e levam uma vida confortável com uma família que escolheu não separá-los. A história desses irmãos apareceu no Domingão do Faustão, numa bonita homenagem feita a Nadir, como mãe postiça de Teresópolis.
Outro fato que me emocionou nesse encontro com Francisco e Nadir, foi ver a emoção e a sinceridade com que o casal trata aquelas pequenas crianças. Um casal interessado em se candidatar a adoção estava no local. O pretendente futuro pai, muito emocionado, falava sobre a revolta de ver crianças sendo maltratadas enquanto tantas pessoas desejam amá-las, e Nadir, com lágrimas nos olhos, disse que sente o mesmo e consolou-o dizendo: “O filho da barriga ou o filho do coração só nasce na hora certa.” Depois confessou que muitas vezes se sente revoltada, como ele, ao ver crianças que ela cuidou com tanto carinho voltarem para pais que não irão amá-las, mas seu conforto é saber que Deus cuida de todos os pequeninos.
Esse casal nos deixa uma lição: “É preciso ter esperança num mundo melhor, pois mesmo vendo todas as maldades cometidas contra as crianças, eles acreditam na força de Deus e que Esse ilumina o caminho de todos.”
Nadir e Francisco sonham com o dia em que outros casais, como eles, pessoas comuns, como você, descubra o quanto é gratificante cuidar e amar essas crianças e que assim surjam novos projetos, novos lares, novas UTIs do coração e mais nenhuma criança precise sofrer numa instituição fria e impessoal.